
Era um fim de semana incerto, legal e que não se mantinha. Havia sossego e trabalho conjuntos, e eu não tinha o que fazer. Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir. Passeava de um lado a outro do quarto e sonhava alto coisas sem nexo nem possibilidades - gestos que me esquecera de fazer, ambições impossiveis realizadas sem rumo, conversas firmes e continuas que, se fossem, teriam sido.
E neste devaneio sem grandeza nem calma, neste atardar sem esperança nem fim, gastava meus passos a manhâs livres e as minhas palavras altas, ditas baixo, soavam multiplas, no claustro do meu simples isolamento.
A minha figura humana, se a considerava com uma atenção externa, era do ridiculo que tudo quanto é humano assume sempre o que é intimo. Vesti sobre os trajes simples de sono abandonado, um roupão velho, que me serve para essas vigilas matutinas. Os meus chinelos velhos estavam rotos, principalmente o do pé esquerdo. E, com as mãos no bolso do roupão póstumo, eu fazia a avenida do meu quarto curto em passos largos e decididos, cumprindo com o devaneio inutil um sonho igual aos de toda a gente
Ainda, pela frescura aberta da minha unica janela, se ouviam cair dos telhados os pingos grossos da acumulação da chuva ida. Ainda, vagos, havia frescores de haver chovido. O céu, porem, era de um azul conquistador, e as nuvens que restavam da chuva derrotada ou cansada cediam, retirando para sobre os lados do meu Castelo, os caminhos legitimos do céu todo.
Era a ocasião de estar alegre. mas pesava-me qualquer coisa, uma ânsia desconhcida, um desejo sem definição, nem até reles. Tardava-me, talvez, a sensação de estar vivo. E quando me debrucei da janela alta, sobre para a rua para onde olhei sem vê-lo, senti-me de repente um daqueles trapos húmidos de limpar coisas sujas, que se levam para a janela para secar, mas se esquecem, enroladinhos, no parapeito que mancham lentamente.
Reconheço, não sei se com tristeza, a secura humana do meu coração.
