terça-feira, 17 de abril de 2012


se ausência não é falta,
solidão não é saudade.


talvez eu possa dizer
que na solidão tenha falta
e que a ausência nutri a saudade.


aí a saudade mastiga a ausência,
sobrando vazio da falta,
se há falta, há solidão.


A saudade chegou de mãos dadas com a solidão.


By: vxz

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Elegia



Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 1 de abril de 2012

do comeco ao fim

"De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou."
(William Shakespeare)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Vassalagem manual


O tempo das medidas, a febre dos sacrifícios. O que basta nem sempre supre. o que régie nem sempre pulsa.
Coração adotado, bastardo de mãe e vigarista de pai, propõe para as dores a insegurança e planta na imensidão do ego um teste de resistência e dignidade.
Tomara que o mundo todo encolha em só nos dois, que nossa unica duvida seja os segredos do universo, que teu sorriso baste para mim e me preencha.
Neste povoado onde tudo retorna para por a prova, onde cada irrelevância seja importante e cada silencio, sepulcral.
Fuja comigo, me aceite com um pacote de defeitos e uma caixinha de prazeres. Me prometo a nós e assino com sangue um atestado de vassalo. Abra-se a mim, há um lugar melhor para nós nos esperando, e tem a nossa cara.

domingo, 11 de março de 2012

Sexo Oral

Primeiro a tua língua molha o meu
coração, num vagar de fera. Estendo
aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre
os copos que desaparecem. Não há mais
ninguém no bar cheio de gente. Abres-me agora os
pulmões, um para cada lado, e sopras. Respiras-
-me. O laser das tuas palavras rasga-me o lobo
frontal do cérebro. A tua boca abre-se e fecha-se,
fecha-se e abre-se, avançando
por dentro da minha cabeça. As minhas cidades
ruem como rios, correndo para o fundo dos teus olhos.
O tempo estilhaça-se no fogo
preso das nossas retinas. O empregado do bar
retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrina,
ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro,
abrindo e fechando as pernas
das palavras, estremecendo no suor dos
olhos abraçados, fazendo sexo
com a lava incandescente dessa revolução
imprevista a que damos o nome de amor

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

sede de medidas



Me perdi no meu marasmo.
Talvez por embaraço ou pelo meu próprio descaso, tenha eu rejeitado minha glória em aceitar o destino.

Descobrir que o tempo não se mede, é como romper a pele do compromisso. é revelar aos olhos a beleza do impedimento. Meus anos e minhas veias estão cheios de horas contadas e calculadas, Entupidas de espera, prazo, pressa e pressão.
Pagamos caro por respirar. Minha existência é infame e efémera,cobro por isso a qualquer custo, e pela sobra descobro que nada sobra, nem um puto!
Dedos sujos manchados de incoerência, folhei-o o livro sagrado no qual debruçam os homens, e extrai de lá toda forma de desprezo pessoal e condolência necessária, para agora me sentir próximo da ideia utópica de julgamento e aceitação. To permitido, sei que posso pecar em aprovação e me atirar em vão sem culpa. Meus pesares estão menos pesados,meu ossos mais frágeis.

Talves eu rasgue meus rostos feitos e abandone meus hábitos usados para seguir a doutrina do presente ou a sequencia do sistema. Pode ser que toda as noções se percam e os valores se corrompem, carregando a sombra da responsabilidade de cobrar pela ignorância em tempos perdido.
Não creio que divinizar as aflições e ignorar a melancolia seja sábio ou que me traga uma calmaria disfarçada de pretexto. Aprisionar desejo, mudar o sexo das nossas sensações.
Culpar nosso inconsciente de nossos infortúnios. tudo parece opaco e repetitivo. Se eu trocar o disco, tudo muda ou todos morrem?

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

era de aquário

essa era é finita
a europa anda falida
o melhor jogador é da argentina
todo o resto vem da china
pessoas não sabem o que querem
se um amor, se um ipad
ou um cruzeiro no nordeste
em dez vezes no cartão de crédito

o prospecto é absurdo
tudo passa, tudo muda
mudança raza
estúpida!
e a gente se enrola
e as coisas acumulam
se problemam
saem pelo ladrão
e acenam

eu só quero uma vaga
pra caber certinho
dentro do sistema
casado e proletário
com vista pro mar de ipanema
esperando a era de aquário
até que nada mais seja