
De repente,não mais que de repente,
tornei-me como que um afluente
na corrente do rio principal.
É quando me desdobro para descobrir por quem dobram os sinos e pressinto me precipitar aos abismos. Sou só um corpo na madrugada. Sinto alguém tocar meu ombro, mas não veio ninguém ao meu encontro. Paro, depuro e me deparo com coisas apropriadas ao abandono: entre as paredes com que me encerro, os pudores, o medo que corre para o fundo do espelho, um antigo bilhete de loteria, questionamentos que não permitem conclusões.
Na minha falta de identidade, eu me reconheço assinalando desesperadamente alternativas pelas quais nunca optei, e aí o sentimento de vazio é preenchido por um amor desmedido pela minha própria imagem. Eu sou – no espelho – quem eu queria comer.
Dialogo desde cedo com lagoas e abismos. Quer dançar comigo um tango à beira do caos? Aceita um Halls? Encontro no mundo ficcional reflexos de minhas angústias todas, não as respostas. Quando me perguntam, respondo com outras perguntas. O que é de fato real?
Eu sei da tua conduta criminal, eu que sou um tímido pássaro perdido cujo coração se alegra quando você sorri, faço versos, mergulho num universo onde não existe nenhuma realidade além do crime. Em casa reproduzo seus silêncios e me incendeio. Existe o gesto e a sugestão do gesto. E qual é o sexo do meu texto? Será que eu conseguiria contar a verdade se parasse de inventar um pouco?
O delegado logo me intima a depor... Não se preocupe: vou dizer que você armazena hambúrgueres, e não revólveres.
André M.
