terça-feira, 1 de novembro de 2016

coruja

Onde esta meu avesso de você? Cada canto que olho, respiro tua presença. Encho os lábios de desejo e pergunto por dentro, onde será que me perdi, foi no tua pele ou no teu beijo? Menino da terra com olhos de coruja cava em mim meu lado que só quer te fazer sorrir. Meu desejo é lhe mostrar o mundo, desbravar o tempo e ir contra tudo. O grande anseio do meu peito, é ser reflexo do teu encanto e motivo de seu sorriso. Sou céu para suas tempestades, sou causa e sujeito oculto de nosso imperativo. Desagua em mim teus beijos e faz do meu corpo tua poça de lama. Me lambuza de você. Talvez depois disso eu vire bixo ou vire morto. O que importa é que contigo sou solto, sou livre, sou seu, como todo.

dual

Criei espaços, redefini estragos e fiz de meu desejo um nó em desato O que antes era conforto hoje se faz oposto e contorna meus hábitos em um exercício de esforço. Talvez não haja espaços para o amor aonde já existe um ser amado Mas como limitar o poder do amor e a capacidade de ser amado? Buscamos quebrar verdades e encolher certezas querendo achar sentido para amores que não fazem mais abrigo. Temos medo de quebrar a lei do amor como se ele fosse um documento, um título, um AI-5 do coração. Se é amor, não cabe lei. Amor só tem que ser lei pra legislar meu peito para a alma, exigindo o direito de te beijar Quero uma lei pro amor que obrigue incertezas e faça como dever desbravar as constelações do céu da sua boca. Se um dia o amor for lei encontrarei-me imutável. Como seria possível obedecer ao amor dentro de uma caixa cheia de você? se o amor é sólido o que sinto então transcende o físico. Essa talvez seja a única explicação para o que escorre no meu peito quando vejo seu sorriso.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

expansão

''expandiu tanto a mente que minha morte foi de pensamentos. por não acreditar que caberia mais saber, desaprendi todo que sabia para entender o que achava que não existia. Hoje me mato e me renasço em tudo que sei e em tudo que faço. Descontruo para entender e desenvolvo para transgredir. Ainda resta tudo para saber. Tenho em mim quase tudo que queria entender. Porém no mundo saber não basta, tem que se viver.''

quarta-feira, 19 de março de 2014

Arnaldo

...É como um impulso sem mola que vem mais de baixo do que de dentro tipo uma libido insana com tremores estranhos e um pontada fina no inconsciente como se me alerta-se sobre algo. Acho que na minha mente mora um Duende. Ainda faço visitas noturna pra vários lugares durante meu sono. Em certas situações ou lugares eu sempre retorno, inevitável. Já tem tantos anos que eu visito você em sonho, que quando não vou, sinto saudade e tenho remorso de quem faltou a um compromisso. Ja aceitei que é como um vício. Sou cheio de vícios, inclusive nos sonhos. eu bebo, fumo, transo descontroladamente com conhecidos ou não, esbravejo palavrões, me lembro até de comandar pessoas, discursas e comprar briga. A maioria é assim, o resto são circunstanciais brandas de sonho. Vou a 'aulas' no meu sonho, sinto aprender, estar sendo ensinado, conduzido, acordo sempre coma sensação literal de ter pousado de volta a terra e levantado como uma múmia do sarcófago. Mas confesso, o mais interessante é voltar pra alguém. Por alguém. O bom do sonho é que a pureza de tudo e incrível perfeição que sinto.E estar no lugar certo, vendo tudo como deveria ver e ser. O encontro é extremamente real! O fato do sonho não ser material não faz nenhuma diferença na hora. Não tem como sentir que não seja real, até a hora de acordar; os sentidos estão todos presentes e em alerta, sinto cheiro, retomo assuntos, mudo de lugar com facilidade inoperante e qd acordo, estou emocional; uma comoção de ter conseguido fazer a visita. Me sinto incrível com essa habilidade que tenho, acho se suma importância pra minha sobrevivência. O Duende deve ser o zelador da minha cabeça. Ele deve ser um pervertido desocupado, todo cheio de si dentro de sua completa limitação de ser feio e morar num cérebro. Amo este duende safado. Darei a ele o nome de Arnaldo. Agora, Arnaldo e eu, cansados de muito, preparados pra tudo e mais insensíveis e incríveis do que nunca, estamos felizes por nos conhecermos e termos um plano para nosso propósito infame.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

avesso

A vontade de mudar veio me trazendo mudanças de olhos mais abertos que os meus. As mudanças reais só vem seguindo um consenso da vida em liberar um espaço que antes não acomodava meus pés, e agora, por sobras de filosofias ou vontade própria que me permite, me faz querer, ou desejar, ou clamar por mais dessa liberdade de ter os passos bem quistos por onde quer que pisem. Os conceitos mudam e a felicidade pode ser maior, ainda que não mais fácil de atingir. A essência salta procurando se juntar aos sorrisos que eu guardo fora do corpo, e se diverte com eles enquanto contam as gargalhas do mundo exterior. As cores voltam pro lugar e a saudade, que nunca se manisfestou por pura falta de existência, abraça as descobertas com a curiosidade das novas percepções. O avesso não é estranho e a falta nem sempre faz mal. Eu só tenho o que sei, e aprender é o que vale mais. - - - - --- Prendi meus medos no escuro e descobri que lá eles tem mais medos que eu. Voltei a dormir. Então vem cá, eu te conto minhas verdades e escuto as suas pra a gente se confundir. Não me chama de amor, a gente se ama em silêncio.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Existindo - guindo.

Agora pense como seria se não existisse Deus, nem o Diabo, nem o Universo, nem planetas, nem seres humanos, etc. O porquê de tudo e de tanta contradição e confusão? Difícil conceber tal coisa? Pense que poderia simplesmente não existir absolutamente nada. Assim ninguém saberia que não há existência, porque ninguém existiria nem em pensamento, pois nada poderia pensar. E não existindo algo para pensar, nada pensaria em existir. Ninguém poderá dizer que entende o fato de existir alguma coisa, porque a existência em si pode não fazer sentido. Mas a partir do momento em que algo existe,passa a existir um sentido para esse algo inexistente, existindo assim um sentido de existir algum sentido para uma existência inexistente! Mas o fato é que a existência existe e se manifesta existindo! Logo, existe um sentido para existir. Será que realmente é bom existir tudo o que existe? Será que fomos obrigados a existir junto com tudo mais, talvez contra nossa vontade ou uma ordem de eventos naturais de inteligencia superior?Mas que vontade, se não existíamos antes de existirmos para ter alguma vontade ou não? Labiríntico? Complicado? será que após pensar isto, é aparente tal absurdo? O certo é que a confusão, intencional ou não, existe porque existe tudo isso, e devemos aprender a viver o melhor possível já que vemos fisicamente. Há muitos mistérios que a ciência e a religião ainda não podem resolver e nos revelar. Porem o homem inteligente, poderá refletir, questionar e buscar a verdade por si mesmo, se existir alguma vontade.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Vontadiando

A vontade de mudar veio me trazendo mudanças de olhos mais abertos que os meus. As mudanças reais só vem seguindo um consenso da vida em liberar um espaço que antes não acomodava meus pés, e agora, por sobras de filosofias ou vontade própria que me permite, me faz querer, ou desejar, ou clamar por mais dessa liberdade de ter os passos bem quistos por onde quer que pisem. Os conceitos mudam e a felicidade pode ser maior, ainda que não mais fácil de atingir. A essência salta procurando se juntar aos sorrisos que eu guardo fora do corpo, e se diverte com eles enquanto contam as gargalhas do mundo exterior. As cores voltam pro lugar e a saudade, que nunca se manisfestou por pura falta de existência, abraça as descobertas com a curiosidade das novas percepções. O avesso não é estranho e a falta nem sempre faz mal. Eu só tenho o que sei, e aprender é o que vale mais.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Refracão

E no fim das contas Todo aquele sentimento que existia Continuou existindo e se tornou Parte necessária de ambos. E agora num algum vejo cruzar o restaurante Seus olhos engraçados Na fila do teatro, um outro com seu jeito de andar No braço de qualquer violão Seu sorriso. De tantas frações de você Eu que se quer te conheço por inteiro Tenho no fim da equação Aquilo que me é verdadeiro. Quando todas as palavras foram ditas E quase todos os sentimentos Aqueles que por agora nos são possíveis Foram sentidos Não há hora perdida que não valha sentir. E na dúvida do certo e errado quero mesmo é me deitar nesse resultado e saber que nossa luz é refração de mil histórias pra se contar.

terça-feira, 22 de maio de 2012

desaponteiro

Minha insanidade e meus atos de loucuras, são meios sociais, foi como aprendi me fazer amar. Trajei roupas suadas de corpos sem nome, injuriei teu nome em blasfêmias repetidas. Se juntar os cacos de mim e os farelos de nós, monta-se um apoeirado de chances e percas. Já cansei de me trair, suprir com carne um espaço de alma e ceder ao tempo a função da promessa. Hoje me recupero, me ergo e sigo em frente de olhos abertos e pau amarrado. Meu amor pra ti desposo de toda alma, e meu corpo só a ti desnudo com toda minha entrega. O que me resta a perde é ti e é tudo que tenho, meu tesouro sagrado. Guarde-me seguro e ama-me como único; sou teu por tempo sem ponteiro, mas vivo por vontade e reconhecimento do que tem em mãos. O amor é um tijolo pesado , que acimenta a dor deixando passar meus medos. Construção frágil e sem reboque, eu quebro essa obra ou enfeito de luz?

quinta-feira, 26 de abril de 2012

galactose

Prostrado em mim. Me esforço impiedoso a ignorar cada ato medíocre teu. É cruel ver um humano odioso e tão ignorante, empurrar com a testa a realidade e o respeito, passar os dias dando ódio de colher na boca do demônio. Escorre ferida. Atualmente ando bem, endireitando meus meados e recolhendo meus sonhos. Sou minha própria distração em você, sou o centro da sua desatenção. Meu erro é teu prêmio e meu pau é teu apego, meu teu é tão seu que a mim só resta ter há você... Será? Por de trás do véu, ascendi uma vela por ti. Rezei uma pedido de ida, um bom presságio pra partida, e um adeus. Achei mais justo manda-lo além, do ficar no mesmo amor eterno de nós dois. Nos encruzilhamos; o que o universo traça, só o homem desgraça! Me rendo, a nós só lamento. Trago de nós uma fumaça pro peito, que traz cheiro,fedor do nosso corpo com teu perfume escroto e meu cigarro branco. Odor é foda, gruda na parede de dentro do corpo, recheia todas as lembranças com aroma e transpõe tudo que é cheiro bonito com tua cara estampada em cima. To fadado e fodido. Céus!

terça-feira, 17 de abril de 2012


se ausência não é falta,
solidão não é saudade.


talvez eu possa dizer
que na solidão tenha falta
e que a ausência nutri a saudade.


aí a saudade mastiga a ausência,
sobrando vazio da falta,
se há falta, há solidão.


A saudade chegou de mãos dadas com a solidão.


By: vxz

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Elegia



Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 1 de abril de 2012

do comeco ao fim

"De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou."
(William Shakespeare)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Vassalagem manual


O tempo das medidas, a febre dos sacrifícios. O que basta nem sempre supre. o que régie nem sempre pulsa.
Coração adotado, bastardo de mãe e vigarista de pai, propõe para as dores a insegurança e planta na imensidão do ego um teste de resistência e dignidade.
Tomara que o mundo todo encolha em só nos dois, que nossa unica duvida seja os segredos do universo, que teu sorriso baste para mim e me preencha.
Neste povoado onde tudo retorna para por a prova, onde cada irrelevância seja importante e cada silencio, sepulcral.
Fuja comigo, me aceite com um pacote de defeitos e uma caixinha de prazeres. Me prometo a nós e assino com sangue um atestado de vassalo. Abra-se a mim, há um lugar melhor para nós nos esperando, e tem a nossa cara.

domingo, 11 de março de 2012

Sexo Oral

Primeiro a tua língua molha o meu
coração, num vagar de fera. Estendo
aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre
os copos que desaparecem. Não há mais
ninguém no bar cheio de gente. Abres-me agora os
pulmões, um para cada lado, e sopras. Respiras-
-me. O laser das tuas palavras rasga-me o lobo
frontal do cérebro. A tua boca abre-se e fecha-se,
fecha-se e abre-se, avançando
por dentro da minha cabeça. As minhas cidades
ruem como rios, correndo para o fundo dos teus olhos.
O tempo estilhaça-se no fogo
preso das nossas retinas. O empregado do bar
retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrina,
ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro,
abrindo e fechando as pernas
das palavras, estremecendo no suor dos
olhos abraçados, fazendo sexo
com a lava incandescente dessa revolução
imprevista a que damos o nome de amor

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

sede de medidas



Me perdi no meu marasmo.
Talvez por embaraço ou pelo meu próprio descaso, tenha eu rejeitado minha glória em aceitar o destino.

Descobrir que o tempo não se mede, é como romper a pele do compromisso. é revelar aos olhos a beleza do impedimento. Meus anos e minhas veias estão cheios de horas contadas e calculadas, Entupidas de espera, prazo, pressa e pressão.
Pagamos caro por respirar. Minha existência é infame e efémera,cobro por isso a qualquer custo, e pela sobra descobro que nada sobra, nem um puto!
Dedos sujos manchados de incoerência, folhei-o o livro sagrado no qual debruçam os homens, e extrai de lá toda forma de desprezo pessoal e condolência necessária, para agora me sentir próximo da ideia utópica de julgamento e aceitação. To permitido, sei que posso pecar em aprovação e me atirar em vão sem culpa. Meus pesares estão menos pesados,meu ossos mais frágeis.

Talves eu rasgue meus rostos feitos e abandone meus hábitos usados para seguir a doutrina do presente ou a sequencia do sistema. Pode ser que toda as noções se percam e os valores se corrompem, carregando a sombra da responsabilidade de cobrar pela ignorância em tempos perdido.
Não creio que divinizar as aflições e ignorar a melancolia seja sábio ou que me traga uma calmaria disfarçada de pretexto. Aprisionar desejo, mudar o sexo das nossas sensações.
Culpar nosso inconsciente de nossos infortúnios. tudo parece opaco e repetitivo. Se eu trocar o disco, tudo muda ou todos morrem?

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

era de aquário

essa era é finita
a europa anda falida
o melhor jogador é da argentina
todo o resto vem da china
pessoas não sabem o que querem
se um amor, se um ipad
ou um cruzeiro no nordeste
em dez vezes no cartão de crédito

o prospecto é absurdo
tudo passa, tudo muda
mudança raza
estúpida!
e a gente se enrola
e as coisas acumulam
se problemam
saem pelo ladrão
e acenam

eu só quero uma vaga
pra caber certinho
dentro do sistema
casado e proletário
com vista pro mar de ipanema
esperando a era de aquário
até que nada mais seja

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

inrelativus


O relativo é o peso na ponta do gatilho. A duvida é virtude do tempo, que prendeu nas pernas das horas a corda do medo.
Sangro pelos poros e meu suor seca no couro cabeludo. To me atinando de você, to me apegando ao medonho.
Vou carburar um cigarro de desprezo e assoprar na sua cara oca. Meu filtro é uma puta cigana, é o perigo que me mantem vivo, cheirei em fileira pra ser meu ultimo tiro!

Me tiro do fosso, me atiro no mundo.
To pronto pra bala e rojão.
sou feito de couro e carvão!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

paparadoxal



Inocêncio três, militarista
Anacleto, incestuoso
Vitor três, um estuprador
João dezesseis, um nepotista
Mas foi Pio décimo segundo
Que foi amigo de nazista

Alexandre sexto, fazia orgia
Bento nove, zoofilia
Leão dez, era hedonista
Paulo três, um cafetão
Mas foi Inocêncio quarto
Quem fundou a Inquisição

Gregório sete, era um déspota
Pio dois, era um pornógrafo
João vinte e dois, era um ladrão
No Vaticano fez a rapa
Sérgio três teve até filho
Que também virou um papa

Estevão sete era insano
Assassino sem pudor
Desenterrou de sua cova
Seu inimigo pra condená-lo
Mas foi Pio número onze
Que de Mussolini foi vassalo

Pro papa João Paulo segundo
Quem tem aids que se dane
Tudo da mesma latrina
E com Bento dezesseis
Segue a carnificina
E o pedófilo ganha vez

(paródia de “Paratodos” de Chico Buarque)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Hamburgueres



De repente,não mais que de repente,

tornei-me como que um afluente

na corrente do rio principal.

É quando me desdobro para descobrir por quem dobram os sinos e pressinto me precipitar aos abismos. Sou só um corpo na madrugada. Sinto alguém tocar meu ombro, mas não veio ninguém ao meu encontro. Paro, depuro e me deparo com coisas apropriadas ao abandono: entre as paredes com que me encerro, os pudores, o medo que corre para o fundo do espelho, um antigo bilhete de loteria, questionamentos que não permitem conclusões.

Na minha falta de identidade, eu me reconheço assinalando desesperadamente alternativas pelas quais nunca optei, e aí o sentimento de vazio é preenchido por um amor desmedido pela minha própria imagem. Eu sou – no espelho – quem eu queria comer.

Dialogo desde cedo com lagoas e abismos. Quer dançar comigo um tango à beira do caos? Aceita um Halls? Encontro no mundo ficcional reflexos de minhas angústias todas, não as respostas. Quando me perguntam, respondo com outras perguntas. O que é de fato real?

Eu sei da tua conduta criminal, eu que sou um tímido pássaro perdido cujo coração se alegra quando você sorri, faço versos, mergulho num universo onde não existe nenhuma realidade além do crime. Em casa reproduzo seus silêncios e me incendeio. Existe o gesto e a sugestão do gesto. E qual é o sexo do meu texto? Será que eu conseguiria contar a verdade se parasse de inventar um pouco?

O delegado logo me intima a depor... Não se preocupe: vou dizer que você armazena hambúrgueres, e não revólveres.


André M.