sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Hamburgueres



De repente,não mais que de repente,

tornei-me como que um afluente

na corrente do rio principal.

É quando me desdobro para descobrir por quem dobram os sinos e pressinto me precipitar aos abismos. Sou só um corpo na madrugada. Sinto alguém tocar meu ombro, mas não veio ninguém ao meu encontro. Paro, depuro e me deparo com coisas apropriadas ao abandono: entre as paredes com que me encerro, os pudores, o medo que corre para o fundo do espelho, um antigo bilhete de loteria, questionamentos que não permitem conclusões.

Na minha falta de identidade, eu me reconheço assinalando desesperadamente alternativas pelas quais nunca optei, e aí o sentimento de vazio é preenchido por um amor desmedido pela minha própria imagem. Eu sou – no espelho – quem eu queria comer.

Dialogo desde cedo com lagoas e abismos. Quer dançar comigo um tango à beira do caos? Aceita um Halls? Encontro no mundo ficcional reflexos de minhas angústias todas, não as respostas. Quando me perguntam, respondo com outras perguntas. O que é de fato real?

Eu sei da tua conduta criminal, eu que sou um tímido pássaro perdido cujo coração se alegra quando você sorri, faço versos, mergulho num universo onde não existe nenhuma realidade além do crime. Em casa reproduzo seus silêncios e me incendeio. Existe o gesto e a sugestão do gesto. E qual é o sexo do meu texto? Será que eu conseguiria contar a verdade se parasse de inventar um pouco?

O delegado logo me intima a depor... Não se preocupe: vou dizer que você armazena hambúrgueres, e não revólveres.


André M.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Irocômico


Nas ultimas horas do dia, recolhemos nossas sobras e repousamos nossas fraquezas; me deito um pouco embriagado e olho pro teto esperando o céu descer dele.
A trilha sonora dos dias só toca melodrama, minha vitrola não se esforça nem arranha. Se senti ultrapassada.. compreendo.
To largado! rasguei tudo, descolori tudo pela frente, arrumei tudo por ordem de apatia enfileirando meus sonos perdidos de sonhos frustrados.
Sou soldado de uma causa vã.

Afrouxei a corda.. me desapeguei das ações pra me desprender das reações. Enfiei o dedo no cu da catarse pra sentir se tinha alma.... achei.
Corro lacônico com as calças arriadas, sorrindo frouxo para os moços da praça. Se alguém me gritar eu paro. Se alguém me atirar eu sangro. Se alguém me foder eu gozo.... Pode não ser pra sempre, pode ser que o pra sempre e toda a ideia de sempre e nunca nem existam e toda minha existência seja pura prova e expiação de uma criação espontânea da natureza.
Soberba minha achar que minha canalhice superaria a ironia divina.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

é vã



essa complacência vã. nada é certo para se deixar ao acaso.
Se crês em destino ou na boa oferta do paraíso, só lamento por ti e teus filhos. Bastardos de um mundo ferido, pilulas abortivas de uma sociedade cínica.

Sou o mais novo senil do meu bairro. sou o mais novo rabugento do bar.
Me deixa, não me assista, tenha distancia. Meu sexo é tóxico, minha tarja é preta!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Borboleta Carnívora: Incompreendido Bill

Borboleta Carnívora: Incompreendido Bill: Começa com desabafo, depois arrisca umas mãos na crônica, conto, soneto. Enfim, julga possuir o brilhantismo suficiente para a poesia. M...

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Virado



Me emaranhei nas preguiças frias cobertas sob seu corpo. A moleza tímida da manhã trazia consigo o cheiro seco de cinzas no moletom.
No sonho em que estava, ainda não acabou; To voltando pra Terra tonto, sóbrio.
Que bom que era sonho, estou seguro novamente no conforto de minha ocupação vazia.

Os dias geralmente se arrastam com correntes largas, se envergonhando diariamente da sua lentidão infame que revela as maiores feridas da avareza dos dias.
A rotina é cruel, nos força a vista e encurrala a percepção.

As Pessoas são más, disso já sei. Somos vacilantes, sujos!
Esfregamos nossa miséria no chão esperando colher certa moral. é tudo em vão; Todos somos.

Kant já dizia:''Todos nossos atos são insignificantes, mas devem ser feitos''.
Contrariando nossa própria insignificância, aponto o dedo pra frente e o pau pra cima, acredito na força da opinião e me entrego a alguma razão. Meu conforto é a moral limitada.

Me movo rouco, tusso a todo instante e olho menos aos olhos alheios, não sei dizer se abaixei a guarda ou me rendi por completo, sucumbo tanto que parei de perceber...
minha condição exposta, me poe de cobaia de minhas próprias desaventuras, meus próprios devaneios.
Talvez eu encontre minha própria catarse, me vire do avesso e case comigo mesmo.
Deste jogo sem louros, quebro minhas regras.

terça-feira, 30 de agosto de 2011



ainda ontem te vi
não era exatamente você
era teu nome
flutuando na claridade
salpicado de tormentas

ainda há pouco te vi
e estavas nu
não você, era teu nome
bailando ao vento
em desvario

ainda ontem te vi
e já nem doeu
teu nome vagava
belamente desnudo de você

não se apoquente
era só um nome que eu rabisco
nessas tardes lassas
em que morrem palavras
delicadas e nossas

ainda há pouco te vi e
corri para o abrigo de papel
fechei os olhos mas ainda ouvi
um eco perdido de avalanches mortas

eu secreto lenimentos corrosivos
sobre os liames da tua língua predatória
enquanto sigo lendo nas entrelinhas das ausências

(rosa cardoso)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O hoje: fadiga


Há certo tempo que ando tendo saudades dos sentimentos velhos. Uns sentimentos que eram tão bons, e novos, e inocentes de certa forma por ser puro na espontaneidade, mas, entretanto, fruto da descoberta, do frisson, do tesão do ato. Não que hoje eu não tenha sentimentos ou tesão e tenha perdido a beleza nas cores e o brilho nos olhos, esses atributos ainda não me afundei para perde-los. Penso somente no jeito que acontecia na pessoa que eu era quem fui durante o tempo, as coisas que fiz, não fiz, inventei me iludi. Essas paradas definem a mente das pessoas, quando me do por mim, já estou numa camada nova, vivendo nela a mais tempo do que percebido e não gostando dela de imediato.

Ando cansado de tudo. Mas cansado todos que conheço também são, não sei se é algo motivador, ta mais pra condição existencial no globo. Requisito básico. Talvez se eu trocasse alguns hábitos por outros mais salutares, perder uns vícios e manias prejudiciais e lúcidas, eu poderia mudar minha visão das coisas, experimentar de uma camada mais externa, desprendida de matéria e suor. Espiritualizado sou, isso não nego. Aceitei precoce o lado espiritual como curioso e fundamental algo que gera questionamento e contraversão a todo momentos, envolvendo todos os humanos numa cadeia de fundamentos, teorias, lagrimas e devoções. È intrigante!

O cansaço é efêmero, logo mais ele se cansa. To pronto eu pra abandona o doce rosto manso da apatia? Vicio-me com facilidade, verdade. Ta estreita a trilha, porem o teto é alto, pra eu olha pra cima e já te barato.

Hoje me dei conta de mais uma verdade, coisa que agora para mim é mais uma nova resolução. Tenho certeza que eu vou mudá-la, claro que sim. Mas não vai ser mais eu, dormir hoje já é uma incerteza de existir. Vou me amarrar no mundo, senta na beira e dar espaço. Vou ajudar a atmosfera pra ela me ajudar.