domingo, 11 de março de 2012
Sexo Oral
coração, num vagar de fera. Estendo
aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre
os copos que desaparecem. Não há mais
ninguém no bar cheio de gente. Abres-me agora os
pulmões, um para cada lado, e sopras. Respiras-
-me. O laser das tuas palavras rasga-me o lobo
frontal do cérebro. A tua boca abre-se e fecha-se,
fecha-se e abre-se, avançando
por dentro da minha cabeça. As minhas cidades
ruem como rios, correndo para o fundo dos teus olhos.
O tempo estilhaça-se no fogo
preso das nossas retinas. O empregado do bar
retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrina,
ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro,
abrindo e fechando as pernas
das palavras, estremecendo no suor dos
olhos abraçados, fazendo sexo
com a lava incandescente dessa revolução
imprevista a que damos o nome de amor
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
sede de medidas

Me perdi no meu marasmo.
Talvez por embaraço ou pelo meu próprio descaso, tenha eu rejeitado minha glória em aceitar o destino.
Descobrir que o tempo não se mede, é como romper a pele do compromisso. é revelar aos olhos a beleza do impedimento. Meus anos e minhas veias estão cheios de horas contadas e calculadas, Entupidas de espera, prazo, pressa e pressão.
Pagamos caro por respirar. Minha existência é infame e efémera,cobro por isso a qualquer custo, e pela sobra descobro que nada sobra, nem um puto!
Dedos sujos manchados de incoerência, folhei-o o livro sagrado no qual debruçam os homens, e extrai de lá toda forma de desprezo pessoal e condolência necessária, para agora me sentir próximo da ideia utópica de julgamento e aceitação. To permitido, sei que posso pecar em aprovação e me atirar em vão sem culpa. Meus pesares estão menos pesados,meu ossos mais frágeis.
Talves eu rasgue meus rostos feitos e abandone meus hábitos usados para seguir a doutrina do presente ou a sequencia do sistema. Pode ser que toda as noções se percam e os valores se corrompem, carregando a sombra da responsabilidade de cobrar pela ignorância em tempos perdido.
Não creio que divinizar as aflições e ignorar a melancolia seja sábio ou que me traga uma calmaria disfarçada de pretexto. Aprisionar desejo, mudar o sexo das nossas sensações.
Culpar nosso inconsciente de nossos infortúnios. tudo parece opaco e repetitivo. Se eu trocar o disco, tudo muda ou todos morrem?
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
era de aquário
a europa anda falida
o melhor jogador é da argentina
todo o resto vem da china
pessoas não sabem o que querem
se um amor, se um ipad
ou um cruzeiro no nordeste
em dez vezes no cartão de crédito
o prospecto é absurdo
tudo passa, tudo muda
mudança raza
estúpida!
e a gente se enrola
e as coisas acumulam
se problemam
saem pelo ladrão
e acenam
eu só quero uma vaga
pra caber certinho
dentro do sistema
casado e proletário
com vista pro mar de ipanema
esperando a era de aquário
até que nada mais seja
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
inrelativus

O relativo é o peso na ponta do gatilho. A duvida é virtude do tempo, que prendeu nas pernas das horas a corda do medo.
Sangro pelos poros e meu suor seca no couro cabeludo. To me atinando de você, to me apegando ao medonho.
Vou carburar um cigarro de desprezo e assoprar na sua cara oca. Meu filtro é uma puta cigana, é o perigo que me mantem vivo, cheirei em fileira pra ser meu ultimo tiro!
Me tiro do fosso, me atiro no mundo.
To pronto pra bala e rojão.
sou feito de couro e carvão!
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
paparadoxal

Inocêncio três, militarista
Anacleto, incestuoso
Vitor três, um estuprador
João dezesseis, um nepotista
Mas foi Pio décimo segundo
Que foi amigo de nazista
Alexandre sexto, fazia orgia
Bento nove, zoofilia
Leão dez, era hedonista
Paulo três, um cafetão
Mas foi Inocêncio quarto
Quem fundou a Inquisição
Gregório sete, era um déspota
Pio dois, era um pornógrafo
João vinte e dois, era um ladrão
No Vaticano fez a rapa
Sérgio três teve até filho
Que também virou um papa
Estevão sete era insano
Assassino sem pudor
Desenterrou de sua cova
Seu inimigo pra condená-lo
Mas foi Pio número onze
Que de Mussolini foi vassalo
Pro papa João Paulo segundo
Quem tem aids que se dane
Tudo da mesma latrina
E com Bento dezesseis
Segue a carnificina
E o pedófilo ganha vez
(paródia de “Paratodos” de Chico Buarque)
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Hamburgueres

De repente,não mais que de repente,
tornei-me como que um afluente
na corrente do rio principal.
É quando me desdobro para descobrir por quem dobram os sinos e pressinto me precipitar aos abismos. Sou só um corpo na madrugada. Sinto alguém tocar meu ombro, mas não veio ninguém ao meu encontro. Paro, depuro e me deparo com coisas apropriadas ao abandono: entre as paredes com que me encerro, os pudores, o medo que corre para o fundo do espelho, um antigo bilhete de loteria, questionamentos que não permitem conclusões.
Na minha falta de identidade, eu me reconheço assinalando desesperadamente alternativas pelas quais nunca optei, e aí o sentimento de vazio é preenchido por um amor desmedido pela minha própria imagem. Eu sou – no espelho – quem eu queria comer.
Dialogo desde cedo com lagoas e abismos. Quer dançar comigo um tango à beira do caos? Aceita um Halls? Encontro no mundo ficcional reflexos de minhas angústias todas, não as respostas. Quando me perguntam, respondo com outras perguntas. O que é de fato real?
Eu sei da tua conduta criminal, eu que sou um tímido pássaro perdido cujo coração se alegra quando você sorri, faço versos, mergulho num universo onde não existe nenhuma realidade além do crime. Em casa reproduzo seus silêncios e me incendeio. Existe o gesto e a sugestão do gesto. E qual é o sexo do meu texto? Será que eu conseguiria contar a verdade se parasse de inventar um pouco?
O delegado logo me intima a depor... Não se preocupe: vou dizer que você armazena hambúrgueres, e não revólveres.
André M.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Irocômico

A trilha sonora dos dias só toca melodrama, minha vitrola não se esforça nem arranha. Se senti ultrapassada.. compreendo.
To largado! rasguei tudo, descolori tudo pela frente, arrumei tudo por ordem de apatia enfileirando meus sonos perdidos de sonhos frustrados.
Sou soldado de uma causa vã.
Afrouxei a corda.. me desapeguei das ações pra me desprender das reações. Enfiei o dedo no cu da catarse pra sentir se tinha alma.... achei.
Corro lacônico com as calças arriadas, sorrindo frouxo para os moços da praça. Se alguém me gritar eu paro. Se alguém me atirar eu sangro. Se alguém me foder eu gozo.... Pode não ser pra sempre, pode ser que o pra sempre e toda a ideia de sempre e nunca nem existam e toda minha existência seja pura prova e expiação de uma criação espontânea da natureza.
Soberba minha achar que minha canalhice superaria a ironia divina.