quinta-feira, 16 de junho de 2011

o ritmo do sal




Eis o menino de sal, o menino de sal que pesa no meu coração.
Olhai o fundo dos meus olhos, por este prisma de lagrimas,
olhai, olhai, e avistareis o menino de sal, o outrora azul menino de doce rosto em que desejei pregar asas de amor e de anjo.
Eis o menino de sal, que os bruxos arrebentam, que os saltinbancos pousam num fio tênue, que as feras cobiçam de dentes a mostra num horizonte amargo.
O menino de sal que vai fundir os oceanos desvairados.

Falo-vos de um menino que adivinha o mundo, que queria vencer a morte, que acordava alto da noite com pesadelos sôfregos de floresta, matilhas e espingardas.
Falo-vos de um menino límpido, que amava a água e o jasmim, que queria ressucitar os mortos, que pairava entre as primeiras palavras, incerto como a lua nos lábios das nuvens.
Eis o menino de sal que de muito longe me estende as mãos sobre um tempestuoso deserto, sobre uma noite sem margens... Pensareis que falo de um menino morto

Falo-vos de um menino de sal, de um menino banhado em lágrimas, num menino sozinho num campo de duros combates, de um menino de olhos abertos no inferno, imóvel entre vampiros, sonambulos e loucos.
Falo-vos de um menino que ninguem poderá salvar, se aluz do céu nao descer por dentro dele e não arder brilhante e firme como um divino arco-iris e não for sua bússula e sua alma, sua respiração, sua voz, sua vontade e seu ritmo.

Eis o menino de sal, o outrora azul menino, subitamente esquecido, desamado, flor cortada que ainda nao sente que arrancaram da terra e entretem sua vida em provisória água falaz.

Cecilia Meireles


domingo, 5 de junho de 2011

em margem



Não basta ter apenas. Ainda hei de me impor para as tormentas, espero que ninguem aprenda com estas tais reverencias.Trajamos as faces impostas e comemos as histórias aborrecidas.Em tempos de auróra nada é implicito, eu choro no contorno do mundo, eu morro na margem de mim.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

senso






Em todas as horas e em todos os tempos a margem das coisas se aproxima.
Nos dias de glória, vejo com esplendor os brotos surgindo nos lábios que beijo,
e as cores que pinto ao revelar meu sonho.
Quem derá se a minha alma fosse nobre ,o meu coração pobre, se a justica fosse impía e a tristeza somente fruto de melancolia.

Rasgando com medidas, costurei um rosto com trapos de mim; pintei meu coração de roxo e sumi! Me deram como morto.
Acordei sorrindo, e a lua estava de pernas abertas pra mim, me senti como a cisma, que desconfia tranquila de sua confortavel sina.

Acho que cresci, estou espiritualizado,por isso nao acredito no acaso. Pra mim, todo louco é predestinado.

sexta-feira, 6 de maio de 2011


O tempo é mesmo engraçado. Tem gente que diz que é o melhor remédio, mas dessa afirmação insana constantemente discordo. Não é o melhor remédio, simplesmente porque não cura, não faz esquecer. Só desvia o assunto que antes era o principal, pra outra coisa que agora já é mais importante. Faz com que a gente vá se deixando perder em outros sorrisos, e se encontrar em outros abraços e gestos singelos do mais puro e extremo carinho. E faz com que a gente sinta novas saudades, novos sentimentos. Mas não é que gente esquece. A gente só desvia o assunto e não se recorda mais de alguns detalhes. Mas de verdade? Esquecer, a gente nunca esquece. E se o tempo é um protagonista cruel e contraditório, que faz com que a gente mais ou menos se esqueça e metade de se lembre, nós precisamos ser fortes o suficiente pra saber como lidar com isso. E precisamos acreditar que um dia as coisas possam se resolver. E que não sej a culpa do tempo, mas sim do coração. Porque o tempo na verdade é como aqueles documentos perdidos por algum lugar, achados sem querer em uma tarde melancólica de mais um daqueles terríveis domingos. E nós somos a gaveta em que eles se encontram. O tempo guarda memórias importantes dentro da gente, pra que depois, nos nossos piores momentos, possamos recordá-las. Encontrá-las, assim como se achou aquele papel importante dentro daquela gaveta gasta de madeira. É. Vida complicada. O jeito não é fugir daquele tic tac do relógio, mas encará-lo de frente. E acredite, sei eu muito bem que não dá pra viver o presente sem se importar com o que virá daqui em diante. Afinal, sabe o tempo? Ele não volta. E também não esquece.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

tecidos inábeis



As pessoas falam coisas, e por trás do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem há o que são e nem sempre se mostra. Há os níveis não formulados, camadas imperceptíveis, fantasias que nem sempre controlamos, expectativas que quase nunca se cumprem e sobretudo, como dizias, emoções. Que nem se mostram. Por tudo isso, infelizmente, repetirás, insistirás completamente desesperado, e teu único apoio será a mão estendida que, passo a passo,raciocinas com penosa lucidez, através de cada palavra estarás quem sabe afastando para sempre.
Mas já não sou capaz de me calar, talvez dirás então, descontrolado e um pouco mais dramático,
porque meu silêncio já não é uma omissão, mas uma mentira. O outro te olhará com olhos vazios,
não entendendo que teu ritmo acompanharia o desenrolar de uma paisagem interna absolutamente não verbalizável, desenhada traço a traço em cada minuto dos vários dias e tantas noites de todos aqueles meses anteriores, recuando até a data maldita ou bendita, ainda não ousaste definir, em que pela primeira vez o círculo magnético da existência de um, por acaso banal ou pura magia,interceptou o círculo do outro.
No silêncio que se faria, pensas, precisarás fazer alguma coisa como colocar um disco ou ensaiar um gesto, mas talvez não faças nada, pois ele continuará te olhando com seus olhos vazios no fundo dos quais procuras, mergulhador submarino, o indício mínimo de algum tesouro escondido para que possas voltar à tona com um sorriso nos lábios e as mãos repletas de pedras preciosas. Mas nesse silêncio que certamente se fará talvez acendas mais um cigarro, e com a seca boca cerrada sem nenhum sorriso, evitarias o mergulho para não correres o risco de encontrar uma fera adormecida.
Teu coração baterá com força, sem que ninguém escute, e por um momento talvez imagines que
poderias soltar os membros e simplesmente tocá-lo, como se assim conseguisses produzir uma
espécie qualquer de encantamento que de repente iluminaria esta sala com aquela luz que tentas em vão descobrir também nele, enquanto dentro de ti ela se faz quase tangível de tão clara.
Nítida luz que ele não vê, esse outro sentado a teu lado na sala levemente escurecida, onde os sons externos mal penetram, como se estivessem os dois presos numa bolha de ar, de tempo, de espaço, e novamente encherás o cálice com um pouco mais de vinho para que o líquido descendo por tua garganta trêmula vá ao encontro dessa claridade que tentas, precário, transformar em palavras luminosas para oferecer a ele.
Que nada diz, e nada dirás, e sem saber por quê imaginas um extenso corredor escuro onde tateias feito cego, as mãos estendidas para o vazio, pressentindo o nada que tu mesmo prepararias agora, suicida meticuloso, através de silêncios mal tecidos e palavras inábeis, pobre coisa sedente, te feres, exigindo o poço alheio para saciar tua sede indivisível.

Caio fernando Abreu

terça-feira, 22 de março de 2011

baixiô




Era um fim de semana incerto, legal e que não se mantinha. Havia sossego e trabalho conjuntos, e eu não tinha o que fazer. Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir. Passeava de um lado a outro do quarto e sonhava alto coisas sem nexo nem possibilidades - gestos que me esquecera de fazer, ambições impossiveis realizadas sem rumo, conversas firmes e continuas que, se fossem, teriam sido.

E neste devaneio sem grandeza nem calma, neste atardar sem esperança nem fim, gastava meus passos a manhâs livres e as minhas palavras altas, ditas baixo, soavam multiplas, no claustro do meu simples isolamento.


A minha figura humana, se a considerava com uma atenção externa, era do ridiculo que tudo quanto é humano assume sempre o que é intimo. Vesti sobre os trajes simples de sono abandonado, um roupão velho, que me serve para essas vigilas matutinas. Os meus chinelos velhos estavam rotos, principalmente o do pé esquerdo. E, com as mãos no bolso do roupão póstumo, eu fazia a avenida do meu quarto curto em passos largos e decididos, cumprindo com o devaneio inutil um sonho igual aos de toda a gente


Ainda, pela frescura aberta da minha unica janela, se ouviam cair dos telhados os pingos grossos da acumulação da chuva ida. Ainda, vagos, havia frescores de haver chovido. O céu, porem, era de um azul conquistador, e as nuvens que restavam da chuva derrotada ou cansada cediam, retirando para sobre os lados do meu Castelo, os caminhos legitimos do céu todo.

Era a ocasião de estar alegre. mas pesava-me qualquer coisa, uma ânsia desconhcida, um desejo sem definição, nem até reles. Tardava-me, talvez, a sensação de estar vivo. E quando me debrucei da janela alta, sobre para a rua para onde olhei sem vê-lo, senti-me de repente um daqueles trapos húmidos de limpar coisas sujas, que se levam para a janela para secar, mas se esquecem, enroladinhos, no parapeito que mancham lentamente.


Reconheço, não sei se com tristeza, a secura humana do meu coração.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Deliriolema




Agora nao da mesmo pra ser feliz,é impossivel. Mas quem disse que agente precisa ser sempe feliz? Isso é bobagem, como Vinicius cantou `melhor viver do que ser feliz`. Porque, pra viver de verdade, agente tem que quebrar a cara. Tem que tentar pra caralho e não conseguir. Acreditar que vai dar e nõ deu. Querer muito e não alcancar. Ter e perder.

E de qualquer forma, as cegas, as tontas, tenho feito o que acredito, do jeito talvez torto que sei fazer.

E porque quando eu fecho os olhos, é voce quem eu vejo; aos lados, em cima, em baixo, por fora e dentro de mim... talvez seja por isso que eu ande cada vez mais só.


Sem pensar em mais nada fecho os olhos para esquecer. Dorme, menino, repito no escuro, o sono tambem salva. Ou adia.