
Eis o menino de sal, o menino de sal que pesa no meu coração.
Olhai o fundo dos meus olhos, por este prisma de lagrimas,
olhai, olhai, e avistareis o menino de sal, o outrora azul menino de doce rosto em que desejei pregar asas de amor e de anjo.
Eis o menino de sal, que os bruxos arrebentam, que os saltinbancos pousam num fio tênue, que as feras cobiçam de dentes a mostra num horizonte amargo.
O menino de sal que vai fundir os oceanos desvairados.
Falo-vos de um menino que adivinha o mundo, que queria vencer a morte, que acordava alto da noite com pesadelos sôfregos de floresta, matilhas e espingardas.
Falo-vos de um menino límpido, que amava a água e o jasmim, que queria ressucitar os mortos, que pairava entre as primeiras palavras, incerto como a lua nos lábios das nuvens.
Eis o menino de sal que de muito longe me estende as mãos sobre um tempestuoso deserto, sobre uma noite sem margens... Pensareis que falo de um menino morto
Falo-vos de um menino de sal, de um menino banhado em lágrimas, num menino sozinho num campo de duros combates, de um menino de olhos abertos no inferno, imóvel entre vampiros, sonambulos e loucos.
Falo-vos de um menino que ninguem poderá salvar, se aluz do céu nao descer por dentro dele e não arder brilhante e firme como um divino arco-iris e não for sua bússula e sua alma, sua respiração, sua voz, sua vontade e seu ritmo.
Eis o menino de sal, o outrora azul menino, subitamente esquecido, desamado, flor cortada que ainda nao sente que arrancaram da terra e entretem sua vida em provisória água falaz.
Cecilia Meireles
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