segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

inrelativus


O relativo é o peso na ponta do gatilho. A duvida é virtude do tempo, que prendeu nas pernas das horas a corda do medo.
Sangro pelos poros e meu suor seca no couro cabeludo. To me atinando de você, to me apegando ao medonho.
Vou carburar um cigarro de desprezo e assoprar na sua cara oca. Meu filtro é uma puta cigana, é o perigo que me mantem vivo, cheirei em fileira pra ser meu ultimo tiro!

Me tiro do fosso, me atiro no mundo.
To pronto pra bala e rojão.
sou feito de couro e carvão!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

paparadoxal



Inocêncio três, militarista
Anacleto, incestuoso
Vitor três, um estuprador
João dezesseis, um nepotista
Mas foi Pio décimo segundo
Que foi amigo de nazista

Alexandre sexto, fazia orgia
Bento nove, zoofilia
Leão dez, era hedonista
Paulo três, um cafetão
Mas foi Inocêncio quarto
Quem fundou a Inquisição

Gregório sete, era um déspota
Pio dois, era um pornógrafo
João vinte e dois, era um ladrão
No Vaticano fez a rapa
Sérgio três teve até filho
Que também virou um papa

Estevão sete era insano
Assassino sem pudor
Desenterrou de sua cova
Seu inimigo pra condená-lo
Mas foi Pio número onze
Que de Mussolini foi vassalo

Pro papa João Paulo segundo
Quem tem aids que se dane
Tudo da mesma latrina
E com Bento dezesseis
Segue a carnificina
E o pedófilo ganha vez

(paródia de “Paratodos” de Chico Buarque)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Hamburgueres



De repente,não mais que de repente,

tornei-me como que um afluente

na corrente do rio principal.

É quando me desdobro para descobrir por quem dobram os sinos e pressinto me precipitar aos abismos. Sou só um corpo na madrugada. Sinto alguém tocar meu ombro, mas não veio ninguém ao meu encontro. Paro, depuro e me deparo com coisas apropriadas ao abandono: entre as paredes com que me encerro, os pudores, o medo que corre para o fundo do espelho, um antigo bilhete de loteria, questionamentos que não permitem conclusões.

Na minha falta de identidade, eu me reconheço assinalando desesperadamente alternativas pelas quais nunca optei, e aí o sentimento de vazio é preenchido por um amor desmedido pela minha própria imagem. Eu sou – no espelho – quem eu queria comer.

Dialogo desde cedo com lagoas e abismos. Quer dançar comigo um tango à beira do caos? Aceita um Halls? Encontro no mundo ficcional reflexos de minhas angústias todas, não as respostas. Quando me perguntam, respondo com outras perguntas. O que é de fato real?

Eu sei da tua conduta criminal, eu que sou um tímido pássaro perdido cujo coração se alegra quando você sorri, faço versos, mergulho num universo onde não existe nenhuma realidade além do crime. Em casa reproduzo seus silêncios e me incendeio. Existe o gesto e a sugestão do gesto. E qual é o sexo do meu texto? Será que eu conseguiria contar a verdade se parasse de inventar um pouco?

O delegado logo me intima a depor... Não se preocupe: vou dizer que você armazena hambúrgueres, e não revólveres.


André M.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Irocômico


Nas ultimas horas do dia, recolhemos nossas sobras e repousamos nossas fraquezas; me deito um pouco embriagado e olho pro teto esperando o céu descer dele.
A trilha sonora dos dias só toca melodrama, minha vitrola não se esforça nem arranha. Se senti ultrapassada.. compreendo.
To largado! rasguei tudo, descolori tudo pela frente, arrumei tudo por ordem de apatia enfileirando meus sonos perdidos de sonhos frustrados.
Sou soldado de uma causa vã.

Afrouxei a corda.. me desapeguei das ações pra me desprender das reações. Enfiei o dedo no cu da catarse pra sentir se tinha alma.... achei.
Corro lacônico com as calças arriadas, sorrindo frouxo para os moços da praça. Se alguém me gritar eu paro. Se alguém me atirar eu sangro. Se alguém me foder eu gozo.... Pode não ser pra sempre, pode ser que o pra sempre e toda a ideia de sempre e nunca nem existam e toda minha existência seja pura prova e expiação de uma criação espontânea da natureza.
Soberba minha achar que minha canalhice superaria a ironia divina.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

é vã



essa complacência vã. nada é certo para se deixar ao acaso.
Se crês em destino ou na boa oferta do paraíso, só lamento por ti e teus filhos. Bastardos de um mundo ferido, pilulas abortivas de uma sociedade cínica.

Sou o mais novo senil do meu bairro. sou o mais novo rabugento do bar.
Me deixa, não me assista, tenha distancia. Meu sexo é tóxico, minha tarja é preta!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Borboleta Carnívora: Incompreendido Bill

Borboleta Carnívora: Incompreendido Bill: Começa com desabafo, depois arrisca umas mãos na crônica, conto, soneto. Enfim, julga possuir o brilhantismo suficiente para a poesia. M...

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Virado



Me emaranhei nas preguiças frias cobertas sob seu corpo. A moleza tímida da manhã trazia consigo o cheiro seco de cinzas no moletom.
No sonho em que estava, ainda não acabou; To voltando pra Terra tonto, sóbrio.
Que bom que era sonho, estou seguro novamente no conforto de minha ocupação vazia.

Os dias geralmente se arrastam com correntes largas, se envergonhando diariamente da sua lentidão infame que revela as maiores feridas da avareza dos dias.
A rotina é cruel, nos força a vista e encurrala a percepção.

As Pessoas são más, disso já sei. Somos vacilantes, sujos!
Esfregamos nossa miséria no chão esperando colher certa moral. é tudo em vão; Todos somos.

Kant já dizia:''Todos nossos atos são insignificantes, mas devem ser feitos''.
Contrariando nossa própria insignificância, aponto o dedo pra frente e o pau pra cima, acredito na força da opinião e me entrego a alguma razão. Meu conforto é a moral limitada.

Me movo rouco, tusso a todo instante e olho menos aos olhos alheios, não sei dizer se abaixei a guarda ou me rendi por completo, sucumbo tanto que parei de perceber...
minha condição exposta, me poe de cobaia de minhas próprias desaventuras, meus próprios devaneios.
Talvez eu encontre minha própria catarse, me vire do avesso e case comigo mesmo.
Deste jogo sem louros, quebro minhas regras.

terça-feira, 30 de agosto de 2011



ainda ontem te vi
não era exatamente você
era teu nome
flutuando na claridade
salpicado de tormentas

ainda há pouco te vi
e estavas nu
não você, era teu nome
bailando ao vento
em desvario

ainda ontem te vi
e já nem doeu
teu nome vagava
belamente desnudo de você

não se apoquente
era só um nome que eu rabisco
nessas tardes lassas
em que morrem palavras
delicadas e nossas

ainda há pouco te vi e
corri para o abrigo de papel
fechei os olhos mas ainda ouvi
um eco perdido de avalanches mortas

eu secreto lenimentos corrosivos
sobre os liames da tua língua predatória
enquanto sigo lendo nas entrelinhas das ausências

(rosa cardoso)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O hoje: fadiga


Há certo tempo que ando tendo saudades dos sentimentos velhos. Uns sentimentos que eram tão bons, e novos, e inocentes de certa forma por ser puro na espontaneidade, mas, entretanto, fruto da descoberta, do frisson, do tesão do ato. Não que hoje eu não tenha sentimentos ou tesão e tenha perdido a beleza nas cores e o brilho nos olhos, esses atributos ainda não me afundei para perde-los. Penso somente no jeito que acontecia na pessoa que eu era quem fui durante o tempo, as coisas que fiz, não fiz, inventei me iludi. Essas paradas definem a mente das pessoas, quando me do por mim, já estou numa camada nova, vivendo nela a mais tempo do que percebido e não gostando dela de imediato.

Ando cansado de tudo. Mas cansado todos que conheço também são, não sei se é algo motivador, ta mais pra condição existencial no globo. Requisito básico. Talvez se eu trocasse alguns hábitos por outros mais salutares, perder uns vícios e manias prejudiciais e lúcidas, eu poderia mudar minha visão das coisas, experimentar de uma camada mais externa, desprendida de matéria e suor. Espiritualizado sou, isso não nego. Aceitei precoce o lado espiritual como curioso e fundamental algo que gera questionamento e contraversão a todo momentos, envolvendo todos os humanos numa cadeia de fundamentos, teorias, lagrimas e devoções. È intrigante!

O cansaço é efêmero, logo mais ele se cansa. To pronto eu pra abandona o doce rosto manso da apatia? Vicio-me com facilidade, verdade. Ta estreita a trilha, porem o teto é alto, pra eu olha pra cima e já te barato.

Hoje me dei conta de mais uma verdade, coisa que agora para mim é mais uma nova resolução. Tenho certeza que eu vou mudá-la, claro que sim. Mas não vai ser mais eu, dormir hoje já é uma incerteza de existir. Vou me amarrar no mundo, senta na beira e dar espaço. Vou ajudar a atmosfera pra ela me ajudar.

domingo, 10 de julho de 2011

cheiro de alma




Ainda não sei se te ligo ou se faço uma oração.
Meus sonhos com voçê são como contatos imediatos de segundo grau, são devaneios claros numa falta abismal que mora no meu peito.To perturbado de imagens, sua imagem.
Ascendo um cigarro.
Não consigo para de fazer um roteiro da nossa conversa caso eu te ligue, Imagino primeiro seu tom de ''alô'', de imaginar sua cara quando eu disser que sou eu, se voce ja não tiver me reconhecido.
Estranho me ver pensando em fazer aquilo que tenho vontade de suprir e nunca coragem de expremer, de sucumbir.
Acho que me tornei cinza de nós mesmo, imaculei tanto a lembrança que fiz disso um repouso da minha melancolia, o tributo dos meus domingos.
Será que agora você tambem pensa em escrever algo pra mim?.. será que é bunito o que voce dise?
Bunito era você. Como foi facil me apaixonar, somos faceis um ao outro... Não me reconheço ate hoje da pessoa que eu era cuntigo, de tão intrigante eram os tempos, e cinematográfica eram as horas.
Desandei! Confesso que nesse meio tempo todo, quase inteiro, repleto de cacos; me dilacerei. Cortei minha alma em mil pedaços, picotei os dias e os discos e fiz uma colcha de retalhos. Me agasalho dela anoite pra ter minha parcela de degradação própria e segura, tão humana que me disponho a fazer.
Amanheço repleto, de ressaca de tudo e do sono. O gosto ruim na boca me lembra que o dia veio de novo, dando na minha cara o supápo da rotina. Sou modesto e sou escroto,Intragável e cortêz. Aparento ser o centro pra não tem que encarar meu eixo, e nesse banco de conforto fedido que carrego nos ombros, alimento com seu cheiro os meus ares, pra me ajudar a arrastar essas minhas dores táis.
Estou pálido, mais uma nóia nociva aparece em mim. Estou cheio de maltratos e belezas,vejo isso em mim.. me achei no meio de mim e la dentro ta turvo, meio embregado. Só com uma sobriedade carnal meio lasciva e um controle psicótico. Nada incomum..
A noite volta, a Lua me beija.
Amanhã quem sabe eu nao ligue pra voce?! Talvez eu acorde melhor, com as idéias firmes do que dizer, o coração pronto pra tudo que vier ou ceder depois disso e a lingua corajosa pra dizer e vomitar tudo o que quero em cima de voce....ou não?!

domingo, 3 de julho de 2011

emoldurado




meus planos andam plenos, e em rascunho. Resumo os dias pela cara dos minutos e tenho o senso dos sentidos confusos por não saber pra onde olhar, e o que retirar de tudo.
No meio da multidão sua boca vermelha me faz sentir ser o único. no meio do mapa sua indiferença me faz ser um nada.
Cansado de tanto falatório, constipado da fumaça dos seus cigarros, decidi me impedir. Vou deixar os sujos com as sujeiras e os limpos para o limbo. To urrando de vontade de tudo, e o pouco que me trazem eu enrolo nos dedos e enfio no rabo!
Utopia era quando te ter era a certeza. Nunca quis te roubar do mundo nem ser teu como um conjunto, ser dono de teus lábios e de teu tato sempre foi meu bálsamo, meu alamo.
Prego nas paredes do quarto, as cenas que la tive conspirando formas e jeitos de como ter você, foi em prantos.
Pendurei um quadro com minha cara estampada nele, la eu urro cuspindo, de fora me vejo, contemplo.
Cansei de ser espectador do mundo, ficar a beira do sucumbo e respirar o hálito do diabo. Quero meus dias salutares sem imagens, quero só suor e carne. Só o cheiro do meu tabaco fará parte, só minhas roupas estarão jogadas no chão, e como mantenho dito e feito... dos meus planos eu ando pleno, e nesse mapa, você não está no meio.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

o ritmo do sal




Eis o menino de sal, o menino de sal que pesa no meu coração.
Olhai o fundo dos meus olhos, por este prisma de lagrimas,
olhai, olhai, e avistareis o menino de sal, o outrora azul menino de doce rosto em que desejei pregar asas de amor e de anjo.
Eis o menino de sal, que os bruxos arrebentam, que os saltinbancos pousam num fio tênue, que as feras cobiçam de dentes a mostra num horizonte amargo.
O menino de sal que vai fundir os oceanos desvairados.

Falo-vos de um menino que adivinha o mundo, que queria vencer a morte, que acordava alto da noite com pesadelos sôfregos de floresta, matilhas e espingardas.
Falo-vos de um menino límpido, que amava a água e o jasmim, que queria ressucitar os mortos, que pairava entre as primeiras palavras, incerto como a lua nos lábios das nuvens.
Eis o menino de sal que de muito longe me estende as mãos sobre um tempestuoso deserto, sobre uma noite sem margens... Pensareis que falo de um menino morto

Falo-vos de um menino de sal, de um menino banhado em lágrimas, num menino sozinho num campo de duros combates, de um menino de olhos abertos no inferno, imóvel entre vampiros, sonambulos e loucos.
Falo-vos de um menino que ninguem poderá salvar, se aluz do céu nao descer por dentro dele e não arder brilhante e firme como um divino arco-iris e não for sua bússula e sua alma, sua respiração, sua voz, sua vontade e seu ritmo.

Eis o menino de sal, o outrora azul menino, subitamente esquecido, desamado, flor cortada que ainda nao sente que arrancaram da terra e entretem sua vida em provisória água falaz.

Cecilia Meireles


domingo, 5 de junho de 2011

em margem



Não basta ter apenas. Ainda hei de me impor para as tormentas, espero que ninguem aprenda com estas tais reverencias.Trajamos as faces impostas e comemos as histórias aborrecidas.Em tempos de auróra nada é implicito, eu choro no contorno do mundo, eu morro na margem de mim.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

senso






Em todas as horas e em todos os tempos a margem das coisas se aproxima.
Nos dias de glória, vejo com esplendor os brotos surgindo nos lábios que beijo,
e as cores que pinto ao revelar meu sonho.
Quem derá se a minha alma fosse nobre ,o meu coração pobre, se a justica fosse impía e a tristeza somente fruto de melancolia.

Rasgando com medidas, costurei um rosto com trapos de mim; pintei meu coração de roxo e sumi! Me deram como morto.
Acordei sorrindo, e a lua estava de pernas abertas pra mim, me senti como a cisma, que desconfia tranquila de sua confortavel sina.

Acho que cresci, estou espiritualizado,por isso nao acredito no acaso. Pra mim, todo louco é predestinado.

sexta-feira, 6 de maio de 2011


O tempo é mesmo engraçado. Tem gente que diz que é o melhor remédio, mas dessa afirmação insana constantemente discordo. Não é o melhor remédio, simplesmente porque não cura, não faz esquecer. Só desvia o assunto que antes era o principal, pra outra coisa que agora já é mais importante. Faz com que a gente vá se deixando perder em outros sorrisos, e se encontrar em outros abraços e gestos singelos do mais puro e extremo carinho. E faz com que a gente sinta novas saudades, novos sentimentos. Mas não é que gente esquece. A gente só desvia o assunto e não se recorda mais de alguns detalhes. Mas de verdade? Esquecer, a gente nunca esquece. E se o tempo é um protagonista cruel e contraditório, que faz com que a gente mais ou menos se esqueça e metade de se lembre, nós precisamos ser fortes o suficiente pra saber como lidar com isso. E precisamos acreditar que um dia as coisas possam se resolver. E que não sej a culpa do tempo, mas sim do coração. Porque o tempo na verdade é como aqueles documentos perdidos por algum lugar, achados sem querer em uma tarde melancólica de mais um daqueles terríveis domingos. E nós somos a gaveta em que eles se encontram. O tempo guarda memórias importantes dentro da gente, pra que depois, nos nossos piores momentos, possamos recordá-las. Encontrá-las, assim como se achou aquele papel importante dentro daquela gaveta gasta de madeira. É. Vida complicada. O jeito não é fugir daquele tic tac do relógio, mas encará-lo de frente. E acredite, sei eu muito bem que não dá pra viver o presente sem se importar com o que virá daqui em diante. Afinal, sabe o tempo? Ele não volta. E também não esquece.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

tecidos inábeis



As pessoas falam coisas, e por trás do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem há o que são e nem sempre se mostra. Há os níveis não formulados, camadas imperceptíveis, fantasias que nem sempre controlamos, expectativas que quase nunca se cumprem e sobretudo, como dizias, emoções. Que nem se mostram. Por tudo isso, infelizmente, repetirás, insistirás completamente desesperado, e teu único apoio será a mão estendida que, passo a passo,raciocinas com penosa lucidez, através de cada palavra estarás quem sabe afastando para sempre.
Mas já não sou capaz de me calar, talvez dirás então, descontrolado e um pouco mais dramático,
porque meu silêncio já não é uma omissão, mas uma mentira. O outro te olhará com olhos vazios,
não entendendo que teu ritmo acompanharia o desenrolar de uma paisagem interna absolutamente não verbalizável, desenhada traço a traço em cada minuto dos vários dias e tantas noites de todos aqueles meses anteriores, recuando até a data maldita ou bendita, ainda não ousaste definir, em que pela primeira vez o círculo magnético da existência de um, por acaso banal ou pura magia,interceptou o círculo do outro.
No silêncio que se faria, pensas, precisarás fazer alguma coisa como colocar um disco ou ensaiar um gesto, mas talvez não faças nada, pois ele continuará te olhando com seus olhos vazios no fundo dos quais procuras, mergulhador submarino, o indício mínimo de algum tesouro escondido para que possas voltar à tona com um sorriso nos lábios e as mãos repletas de pedras preciosas. Mas nesse silêncio que certamente se fará talvez acendas mais um cigarro, e com a seca boca cerrada sem nenhum sorriso, evitarias o mergulho para não correres o risco de encontrar uma fera adormecida.
Teu coração baterá com força, sem que ninguém escute, e por um momento talvez imagines que
poderias soltar os membros e simplesmente tocá-lo, como se assim conseguisses produzir uma
espécie qualquer de encantamento que de repente iluminaria esta sala com aquela luz que tentas em vão descobrir também nele, enquanto dentro de ti ela se faz quase tangível de tão clara.
Nítida luz que ele não vê, esse outro sentado a teu lado na sala levemente escurecida, onde os sons externos mal penetram, como se estivessem os dois presos numa bolha de ar, de tempo, de espaço, e novamente encherás o cálice com um pouco mais de vinho para que o líquido descendo por tua garganta trêmula vá ao encontro dessa claridade que tentas, precário, transformar em palavras luminosas para oferecer a ele.
Que nada diz, e nada dirás, e sem saber por quê imaginas um extenso corredor escuro onde tateias feito cego, as mãos estendidas para o vazio, pressentindo o nada que tu mesmo prepararias agora, suicida meticuloso, através de silêncios mal tecidos e palavras inábeis, pobre coisa sedente, te feres, exigindo o poço alheio para saciar tua sede indivisível.

Caio fernando Abreu

terça-feira, 22 de março de 2011

baixiô




Era um fim de semana incerto, legal e que não se mantinha. Havia sossego e trabalho conjuntos, e eu não tinha o que fazer. Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir. Passeava de um lado a outro do quarto e sonhava alto coisas sem nexo nem possibilidades - gestos que me esquecera de fazer, ambições impossiveis realizadas sem rumo, conversas firmes e continuas que, se fossem, teriam sido.

E neste devaneio sem grandeza nem calma, neste atardar sem esperança nem fim, gastava meus passos a manhâs livres e as minhas palavras altas, ditas baixo, soavam multiplas, no claustro do meu simples isolamento.


A minha figura humana, se a considerava com uma atenção externa, era do ridiculo que tudo quanto é humano assume sempre o que é intimo. Vesti sobre os trajes simples de sono abandonado, um roupão velho, que me serve para essas vigilas matutinas. Os meus chinelos velhos estavam rotos, principalmente o do pé esquerdo. E, com as mãos no bolso do roupão póstumo, eu fazia a avenida do meu quarto curto em passos largos e decididos, cumprindo com o devaneio inutil um sonho igual aos de toda a gente


Ainda, pela frescura aberta da minha unica janela, se ouviam cair dos telhados os pingos grossos da acumulação da chuva ida. Ainda, vagos, havia frescores de haver chovido. O céu, porem, era de um azul conquistador, e as nuvens que restavam da chuva derrotada ou cansada cediam, retirando para sobre os lados do meu Castelo, os caminhos legitimos do céu todo.

Era a ocasião de estar alegre. mas pesava-me qualquer coisa, uma ânsia desconhcida, um desejo sem definição, nem até reles. Tardava-me, talvez, a sensação de estar vivo. E quando me debrucei da janela alta, sobre para a rua para onde olhei sem vê-lo, senti-me de repente um daqueles trapos húmidos de limpar coisas sujas, que se levam para a janela para secar, mas se esquecem, enroladinhos, no parapeito que mancham lentamente.


Reconheço, não sei se com tristeza, a secura humana do meu coração.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Deliriolema




Agora nao da mesmo pra ser feliz,é impossivel. Mas quem disse que agente precisa ser sempe feliz? Isso é bobagem, como Vinicius cantou `melhor viver do que ser feliz`. Porque, pra viver de verdade, agente tem que quebrar a cara. Tem que tentar pra caralho e não conseguir. Acreditar que vai dar e nõ deu. Querer muito e não alcancar. Ter e perder.

E de qualquer forma, as cegas, as tontas, tenho feito o que acredito, do jeito talvez torto que sei fazer.

E porque quando eu fecho os olhos, é voce quem eu vejo; aos lados, em cima, em baixo, por fora e dentro de mim... talvez seja por isso que eu ande cada vez mais só.


Sem pensar em mais nada fecho os olhos para esquecer. Dorme, menino, repito no escuro, o sono tambem salva. Ou adia.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

brando




Me fiz acreditar que as vezes tenho mais chances com o erro, de tão cansados das certezas que construi.
Embreagado e confuso, destrincho os novos dias e imaculo minhas lembrancas.
Guardo no peito a apatia dos homens que sangram suas vestes e gritam de vontade. Benditos sejam os que encontram o que esperam.
Desprezando meus medos, tenho vontade de cravar em teu pescoco meu punhal; pena que teu amor me amputou as mãos.
Nascido para a noite, encontro na lua uma trilha sinuósa de olhar, e no acaso um luar branco me faz recitar: ``Que saiba me perder..... para me encontrar.``
A foda e doce agonia do esquecer, me faz lembrar doidamente o que esqueci,e se nao dizer o que penso ja é pensar em dizer.. me rendo e me calo, e de ti me afasto.
Vim ao mundo para me ver, e nunca na vida me encontrarei.
Sou semente num mundo de maldades e pecados, sou mais um mal, sou mais um pecador.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Blues da piedade


Agora eu vou cantar pros miseraveis que vagam pelo mundo, derrotados.
Pra essas sementes mal plantadas que ja nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que nao tem
Pra quem ve a luz mas nao ilumina suas mini-incertezas
Vive contando dinheiro e nao muda quando a lua é cheia
Pra quem nao sabe amar, fica esperando alguem que caiba no seu sonho
Como varizes que vao aumentado; como insetos em volta da lampada
Vamos pedir piedade. Senhor, piedade.
Pra esa gente carente e covarde, vamos pedir piedade.
Lhes de grandeza e um pouco de coragem.
Quero cantar só pras pessoas fracas
Que tao no mundo e perdendo a viagem
Quero cantar os blues
Com o pastor e o bumbo na praca.
Vamos pedir piedade, pois há um incendio na chuva rála
Somos iguais em desgraca
Vamos cantar o blues da piedade.
Cazuza

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

devaneio.



Eu me lembro bem.. me lembro dos olhos e da onda de exitação ao meu redor, eu estava ligado a algo que me guiava parecia desde sempre. Aqui e agora, no momento em que vivo e crio é quando me sinto mais confiante; È quando sinto que faço a coisa certa, e uma onda de emoçôes me atingem, e algumas delas são as melhores que ja conheci.

Mas sempre há um idiota que nos julga pelo que fazemos. As piores criticas normalmente vem de pessoas que nao fazem idéia do que fazemos, não tem dons próprios e que ficam irritados quando estamos felizes e alegremente nos provocam, a menos é claro que eu esteja deixando o mundo mais feio,pior... Então este tipo de pessoa vai segurar nossa mão com prazer e dançar cosnoco na sarjeta dizendo que, assim como eles vemos como aquilo é horrivel e se comprazem em comemorar.

Mas desde cedo aprendi que qualquer idiota pode ver como as coisas estão feias, não é preciso ter dom para isso.

Minha história é adulta e escolher ser cinico é uma esoclha infeliz, os cinicos normalmente tem razão. Os romanticos por sua vez normalmente estâo errados, mas um romantico só precisa estar certo uma vez na vida, qunado escolhe seu verdadeiro amor.

Sentir é o inimigo da liderança,talvez o homem comum tenha sido impedido de criar.... Porque? O homem comum é o bom senso. uma vida compartilhada é uma experiência mais emocionante do que uma jornada feita sozinha.

Os seres humanos precisam de validação; Foi como aprendemos, tememos o que não entendemos... e minha arte compartilhada faz parte da validação da vida.

Quando há um contexto não há declaração, quando não há declaração não há intercâmbio,quando não há intercâmbio não há beleza, e quando não há beleza não há arte!

Quando se ve beleza em tudo sua alma é libertada... voce é minha arte.

No lugar onde o homem controla seu ambiente acho que é facil ele acreditar que ele é tudo, mas num plano onde aceitamos as coisas como a natureza quer e não como queremos, é libertador. De certa forma minha pressão vai sucumbindo pois eu descubro que não era tão importante certas relevâncias; E aceitar a idéia de que um poder superior tem um plano pra mim, fez eu me resignar.

Agora, para todo lado que olho vejo voce, como primeiro te tinha como um amor de amante,hoje tenho a certeza de nunca querer voce longe de mim, mesmo que a distância madastra castigue.

Sentimento é consdescendência, é ser um ser humano... é saber que a vida é curta, muito curta.

Chorar,imaginar,rir...rir mesmo de qualquer coisa é o bloco construtor da humanidade, é o que constrói pontes.

Com voce ao meu lado, vejo a essência das coisas antes de ser afetado pelo que o cerca, é radiante como o mundo se mostra quando estou ao seu lado, me deleito.

Estou pronto agora,não a segredos nem respostas, somente trabalho. A experiência das coisas é tudo que possuo.

Obrigado por ser minha obra prima.



''navegar é preciso, viver não é preciso.''

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Me lembro bem da onda de exitação ao meu redor, eu estava ligado a algo que me guiava de forma supreendente. Aqui e agora no momento em crio, é quando me sinto mais confiante, é quando eu sinto que faço a coisa certa e uma torrente de emoções me atinge e alguma delas é a melhor que ja conheci. Mas sempre existem os idiotas que nos julga pelo que fazemos de nossas criações; as piores criticas geralmente vem das pessoas que não fazem idéia do que faço, não tem dons próprios e que ficam irritados quando estamos felizes e alegremente nos provocam. A menos, é claro que eu esteja fazendo algo feio; Então essa pessoa vai segurar minha mão com prazer e dançar comigo na sarjeta dizendo que, assim como eles vemos como aquilo é horrivel e se comprazem em comemorar.

Mas desde cedo aprendi que qualquer idiota pode ver como as coisas estão feias. Não é preciso ter dom para isso.

Minha história é adulta e decidir ser cinico é uma escolha infeliz, os cinicos normalmente tem razão. Os românticos por sua vez normalmente estão errados, mas um romântico só precisa estar certo uma vez na vida quando escolhe seu verdadeiro amor.

Sentir é o inimigo da liderança, talvez o homem comum tenha sido impedido de criar.. Porque? O homem comum é o bom senso. uma vida compartilhada é uma experiencia mais emocionante do que a jornada feita sozinha.

#devaneio

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

To ficando Tio.


Minha careca ta expandindo, meus dedos ficando mais verdes, meu humor mais sombrio e meus amigos mais antigos.
Sim , hoje é meu aniversário e celébro mais um ano de vida, que vida!
E olhando esse tempo de vida que tive, posso dizer em curtas palavras, que essa histórinha toda que foi até hoje,só podai ser minha mesmo e de mais ninguem, até de meus tropeços tive orgulho na mini retrospectiva..
Quem sabe um dia nao viro um senhor grisalho, com cheiro de gente velha acompanhado de um cachorro fogoso.
Terei um bom dia de aniversário! - Adios mundo.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Desassosego


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto,Tenho fome da extensão do tempo, e quero ser eu sem condições.
Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos
gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos;
mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi
a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas
vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me
respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com
que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a
narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos
siameses que não estão pegados...

São as pessoas que habitualmente me cercam, são as almas que, desconhecendo-me, todos os
dias me conhecem com o convívio e a fala, que me põem na garganta do espírito o nó salivar do desgosto físico. É a sordidez monótona da sua vida, paralela à exterioridade da minha, é a sua consciência íntima de serem meus semelhantes, que me veste o traje de forçado, me dá a cela de penitenciário, me faz apócrifo e mendigo